Eu cresci dizendo que tinha 3 avós. As outras crianças faziam cara de interrogação e diziam que isso não era possível. Eu não perdia tempo insistindo, apenas sorria, pois tinha a certeza de que Tia Regina era minha terceira avó e ninguém me convenceria do contrário. E, claro, o conceito de tia-avó era complexo demais para uma criança.

Tia Regina com seus sobrinhos, sua boca de coração e seus olhos de gato
Quis a vida que Tia Regina não tivesse filhos. Eu poderia dizer, tentando enxergar o lado bom da história, que isso aconteceu para que ela se dedicasse ainda mais ao amor infinito que sentia pelos sobrinhos e sobrinhos-netos. Poderia, mas não digo porque seria injusto. Tia Regina nunca aceitou numa boa essa decisão unilateral da vida. Tia Regina tinha amor de sobra para os sobrinhos e para mais uma penca de filhos.
No entanto isso não a tornou uma pessoa triste ou amargurada. De jeito nenhum. Apesar de repetir quase que diariamente a frase "Eu não tive filhos", ela soube reverter muito bem esse amor em ação. Ajudou a criar todos os outros filhos da família. Banho, comida, passeio, piada, carinho. Sempre e de sobra. Nunca no mundo existiu ou existirá pessoa com mais paciência que ela para interagir com crianças. E sempre cantando modinhas e marchinhas. Ela adorava cantar e sempre era hora para música. Se fazia sol ("alalaô, mas que calor"), se estava chovendo ("tomara que chova três dias sem parar"), se havia tristeza ("ó jardineira por que estás tão triste?"), se era preciso partir ("inda mais com 4 filhos, onde é que eu vou morar?"), se era hora de sorrir ("se essa rua, se essa rua fosse minha"). E histórias, milhares de histórias. Não havia dia perto dela que não se ouvisse "Era uma vez uma menina..."
Engana-se quem pensar que ela era apenas um poço de doçura. Não. Tia Regina era uma fortaleza. Além da dor de não poder ter filhos, aguentou uma separação em plena década de 30 - quando mulher separada era vagabunda -, e viu partir, um a um, sua mãe, seu pai, quase todos os irmãos, e um de seus sobrinhos. Era nessas horas, quando todos desabavam, que ela surgia para distribuir sua força e cuidar das crianças. E ainda trabalhava, viu? Foi operária, desde os 11 anos de idade até se aposentar.
Ao contrário do que esses verbos no passado podem ter feito você pensar, ontem, 29 de novembro de 2009, Tia Regina fez 91 anos. Já está bem velhinha, não reconhece mais os sobrinhos e mal abre os olhos de gato. A luzinha está se apagando, aos poucos, mas ela resiste. Resiste porque apesar de todos os problemas de saúde que surgiram, sempre foi muito forte. Talvez tenha se acostumado a resistir aos desafios da vida. Ou talvez essa força venha da yoga que praticava diariamente, ou ainda da dieta extremamente rígida que seguia.
Tendo operado o estômago - na época em que para curar uma úlcera tirava-se parte do órgão -, precisou eliminar uma série de alimentos do cardápio e passou a comer feito um passarinho. Pela manhã, uma xícara de leite com pouquíssimo café e um pãozinho. No almoço, feijão-com-arroz (seu prato predileto, sempre me disse que chorava quando a mãe italiana não fazia), alguma mistura à base de legumes e verduras e talvez alguma carne - sempre de boi ou de frango, jamais de porco e peixe. De sobremesa, uma banana - sua grande paixão. Os doces eram raridade, mas quando apareciam eram comidos à tarde, nunca depois da refeição. E à noite, sempre, sempre, sempre, a sopetela.
No próximo post vou falar um pouco mais da sopetela. Por enquanto, deixo uma última informação sobre a Tia Regina: foi ela quem deu o fogão azul de presente de casamento para meu pai - seu sobrinho mais novo - e minha mãe - a nora querida que virou filha. Ela criou essa tradição na família de dar o fogão para todo sobrinho ou sobrinho-neto que casasse. Como sempre, muito generosa (afinal, quem vive sem fogão?) e também muito esperta, pois assim ninguém jamais conseguiria cozinhar sem se lembrar dessa mulher incrível.