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AGO 09
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Um guia para escolher o peixe que vai à sua mesa

Cajaíba - Mais barquinhos coloridosPouso da Cajaíba, verão de 2006

Taí uma questão que a gente facilmente empurra pra dentro de uma gaveta, fecha bem e promete que volta depois pra pensar a respeito. Porque mexe com a nossa conveniência, com os nossos padrões, com o nosso prato. E começam as desculpas: "Ah, mas eu não tenho tempo pra cozinhar não, PRECISO das minhas latinhas de atum!" ou "Nossa, mas o moço do Globo Repórter disse que salmão faz muito bem e que eu TENHO que comer uma vez por semana!".

O fato é: pode ser que você continue comendo bacalhau até o fim dos seus dias, mas é muito provável que seus netos ou bisnetos não saibam nem que gosto ele tem. Porque acaba, né? Tudo que é tirado do seu devido lugar de um jeito errado, acaba. E aí não tem fazenda ou cercadinho que resolva - na maioria das vezes, só piora.

Eu já tinha me deparado com o assunto algumas vezes. Muita gente boa já falou a respeito: a Carla Pernambuco, o Luis Guerreiro, a Mariana. Agora achei que valia a pena comentar porque encontrei um post super bacana da Lucia Malla, no qual ela apresenta um guia para o nosso consumo de peixes. Autorizada pela própria, reproduzo aqui:

1) NUNCA compre cação. NUNCA coma cação, independente de onde você more. Tubarões ou cações são peixes ameaçadíssimos de extinção no mundo inteiro e ao comê-los, você incentiva o tenebroso comércio de barbatanas pra China. Além do mais, tubarão/cação, como animal do topo da cadeia ecológica, é um dos peixes que mais acumula mercúrio na sua carne, o que é péssimo para a saúde humana. Tubarão não é saudável.

2) Abuse das tilápias no seu cardápio. Tilápias são mais sustentáveis e fáceis de serem criadas para consumo, e geram menos problemas para o ambiente. Como tilápia é uma "marca" de peixe que as pessoas acham "inferior" por sua carne ter naturalmente um gosto de terra, criaram o "St. Peter", que nada mais é que uma variedade de tilápia melhorada criada em cativeiro com carne mais branca e alimentada com ração, o que não deixa que a carne fique com o gosto da terra.

3) Evite bacalhau sempre que possível. O bacalhau é todo importado de longe. Além disso, seus estoques nos locais onde pode ser encontrado no planeta estão à míngua. O preço do bacalhau é assustadoramente caro, e isso é um indicativo da sua raridade cada vez maior - o bacalhau já está extinto em diversas áreas. O João sugere, nos comentários, aos que moram próximo do Pantanal um substituto, o pacu, que também é salgado como o bacalhau. Já a Flávia, sugere aos que moram na Amazônia o pirarucu, que também é salgado como o bacalhau.

4) Só compre lagostas entre maio e dezembro. De janeiro a abril é a época de reprodução desses animais, e se alguém está vendendo lagosta recém-pescada nesse período, está burlando a lei, que proíbe em todo o território brasileiro a pesca da lagosta no período reprodutivo.

5) Evite camarões e consuma-os apenas no período não-reprodutivo. No geral, a pesca do camarão ainda é feita com arrasto, atividade destruidora que joga fora muitos quilos de peixe não-consumível para cada pratinho de camarão coletado. Portanto, é um "desserviço" ao ambiente. Sendo o maior exportador de camarão o nordeste brasileiro, consumi-los por lá é ecologicamente mais adequado que em outras regiões do país. E, apesar de todos os pesares ecológicos, camarão é cultivável, o que facilita seu consumo (o desgaste ecológico da região onde são feitos esses tanques é outro papo mais complicado...) No mar selvagem, há diferentes espécies de camarão que são pescados para consumo e cada uma delas possui um período reprodutivo específico nas diferentes regiões do país. Nesse período a sua pesca é proibida pelo IBAMA. Para o camarão-rosa no extremo nordeste, o período reprodutivo é de março a maio, enquanto na Bahia e Espírito Santo é de setembro a novembro. Os pescadores que dependem dessa atividade para viver são autorizados pelo governo a pedir seguro-desemprego no período reprodutivo, que cobre as perdas por não pescar. Já o camarão-sete-barbas se reproduz entre novembro e meados de dezembro no sudeste do país, sendo essa portanto a época para se evitá-lo. Não achei na internet uma lista clara do período reprodutivo de cada espécie consumida, portanto se alguém souber de tal informação, fico deveras agradecida.

6) Evite salmão cultivado. E se possível, evite salmão em geral, já que ele já se extinguiu em muitas áreas do mundo. Sendo o salmão um peixe de águas gélidas, o salmão selvagem que se consome no Brasil é em sua maioria importado do Chile, o que requer transporte refrigerado em longas distâncias, o que aumenta a emissão de CO2 via queima de combustível fóssil, etc. O preço reflete a dificuldade logística da sua pesca, e por isso, as fazendas de salmão parecem tentadoras. Mas não se engane: o dano que uma fazenda de salmão causa ao ambiente é insano.

7) Consuma preferencialmente os peixes e frutos do mar da sua região. Se você mora perto de rio, consuma peixes de água doce. Se mora perto do mar, consuma peixes de água salgada, de preferência comuns no seu litoral e pescados de forma artesanal, por pescadores de comunidades não envolvidos com pesca em escala industrial. Procure essa informação no órgão do governo estadual ou municipal da sua área que lida com questões de pesca, e vá à peixaria munido da lista adequada de peixes e frutos do mar da sua região.

8) Verifique a espécie de atum ao comprá-lo. Nem todas as espécies de atum estão igualmente ameaçadas de extinção. Infelizmente, o atum azul (blue fin tuna, em inglês), espécie migratória presente apenas em alto-mar e preferido pelos grandes chefs de sushi do mundo, é uma das mais ameaçadas, exatamente pelo alto consumo de sushi no Japão. O Brasil, entretanto, parece ter atum em abundância suficiente para garantir o mercado interno - embora a reportagem linkada não diga que espécies exatamente. E sabemos que há espécies ameaçadas de atum aqui no Brasil, sim. E eu, na dúvida da procedência real, prefiro evitar atum.

9) Preste atenção especial aos congelados. Principalmente animais sazonais, que congelados se tornam difíceis de identificar sua data de pesca - ou seja, em tese, você não sabe se o fulano da indústria pescou aquele camarão no período reprodutivo ou não. Dê preferência ao produto fresco e congele em casa, para consumo posterior. Assim você pelo menos sabe de quando o peixe realmente é.

Eu serei eternamente grata à Lucia por essas informações. São tristes, é verdade, mas muito úteis. Bora diminuir o consumo de peixes, preferir tilápia e esquecer o cação?

Comentários

Renata   14/08/2009 01:29

Maria Re,
Estou assustada com essas informações!!!
Sempre como sushi de salmão e costumamos comer lombo de cação assado em casa - soco bastante alho e passo nele, e deixo marinando no limão, sal, coentro, dill e salvia, pra depois assar.
Do bachalhau já sabia - embora meu marido ame, a gente come só muito de vez em quando. Pelo menos restou a tilápia, né? Peixe favorita da minha filhota. E engraçado que eu achava que ele não era tão legal pra saúde, pois minha nutricionista recomenda comer só peixes de alto mar.
Alimentação é um negócio muito sério, informação é definitvamente MUITO importante.
Beijo
Re

Maria Rê   14/08/2009 01:42

Pois é, Renata. Também estou assustada, jurava que cação era coisa boa. Dá uma olhada aqui, ó. Eu já me convenci. Nada de cação. Agora é divulgar.
beijo

Fer Guimaraes Rosa   14/08/2009 18:50

Maria Rê,

Nao sabia que voce tinha um food blog! :-)
Eu tenho links para guias de compra de peixes nos EUA e Canada, mas nao tenho nada do Brasil. Se voce nao se incomodar, posso linkar esse seu post na minha lista?

beijo,

Maria Rê   14/08/2009 19:30

Fer,
O fogão azul só existe porque você, anos atrás, me mostrou o mundo dos food blogs. Então te dou carta branca pra fazer o que você quiser com qualquer coisa daqui. Ainda mais se for pra ajudar as pessoas. =)

beijos

Lucia Malla   15/08/2009 09:59

Maria Rê, obrigada por divulgar! :)

Bjs!

Maria Rê   17/08/2009 15:38

Eu que agradeço! =)

beijos

Maristela   16/12/2009 17:20

Obrigada pelas informações. São de grande valia. Um abraço

Maristela

Maria Rê   17/12/2009 12:40

Muito importantes, não é? Por isso que vivo divulgando, até em sonho. ;-)

Temos que agradecer é à Lucia Malla aí de cima, ela sim é que tem o conhecimento e fez o trabalho duro de escrever o guia.

Tudo de bom pra você Maristela, fico feliz por ter sido a ponte para essas informações.

beijos!

Joao R L Menezes   20/01/2010 20:59

Maria Re,
Tilapia eh um peixo exotico (africano), sua introducao no Brasil traz consequencias graves para o equilibrio ecologico de nossas aguas fluviais. Seu consumo nao deve ser estimulado no Brasil. O Salmao e o atum tem ambos importante valor nutritivo e essencial para os humanos pelo conteudo de omega3. O cultivo do Salmao apesar dos impactos, e da diminuicao do conteudo de omega3 eh uma solucao que vem sendo aperfeicoada constantemente.

Maria Rê   21/01/2010 00:28

Olá João, tudo bem?

Obrigada pelas informações. Vou procurar saber mais sobre o assunto e posto aqui.
Confesso que preciso de mais dados para me convencer de que consumo de salmão e atum é menos nocivo que o de tilápia. Só ouço e leio catástrofes decorrentes dos criadouros desses peixes. Você tem informações diferentes? Compartilha com a gente, por favor.

Joao R L Menezes   21/01/2010 14:20

Maria Re,
Nao tenho a mao as referencias sobre as novas tecnicas de criacao do salmao, se eu esbarrar de novo em alguma coisa eu mando. Quanto aos acidos graxos da familia omega 3 voce pode achar na rede facilmente. O Dr. Sears tem alguns livros de divulgacao (meio exagerados mas de facil leitura). Hoje mesmo saiu reportagem no globo online: http://oglobo.globo.com/vivermelhor/mat/2010/01/21/oleo-de-peixe-previne-envelhecimento-precoce-protege-pacientes-depois-do-infarto-915664163.asp
Na minha opiniao a solucao nao eh evitar peixes, mas brigar pela melhora das condicoes de criacao e pesca, tal como foi no combate as companias de atum enlatado, que tiveram de mudar as tecnicas de pesca e propagandear o metodo "dolphin safe" na embalagem. A outra eh sites como o seu que divulgam e apoiam o defeso de certas especies marinhas. Abs e parabens

Maria Rê   27/01/2010 12:30

É isso aí, João. Obrigada pela ajuda e pelo elogio.
Eu me interesso muito pelo assunto, mas não é fácil encontrar informação sobre ele. As fontes divergem muito, e é preciso ter cuidado com os interesses que estão por trás delas.
De todo jeito continuo procurando, porque o que não consigo é fingir que não vejo o que está acontecendo. Sigo tentando melhorar sempre.
Obrigada e um abraço.

Liliane   05/08/2010 17:46

Olá Maria Rê, estou visitando seu blog pela primeira vez e estou adorando suas receitas e dicas, e agora me deparei com essa sua divulgação que agradeço por compartilhar.
Aproveito para perguntar se vc sabe algo a respeito do peixe panga que é delicioso, mas fui informada que não é bom para ser consumido e como vc disse acima fiquei em dúvida pelas divergências na net e talvez até outros interesses por trás das informações divulgadas.
Beijos e parabéns pelo blog!

Maria Rê   05/08/2010 19:37

Oi Liliane, obrigada pela visita e pelo comentário!
Fico muito feliz de poder trocar informações com pessoas que não conheceria por outra forma.
Eu nunca tinha ouvido falar do peixe panga e fiquei curiosíssima. Já corri pro google e realmente, só numa primeira e rápida olhada, achei muita gente reclamando da introdução dessa espécie no Brasil.
Vou tentar me informar mais e pedir ajuda a quem conhece mais do assunto. Se conseguir alguma coisa eu publico aqui e te aviso!
um beijão e obrigada!

Eliane Barbosa   26/10/2010 18:42

Ola Maria Re
Comprei o peixe panga e adorei mas como nunca tinha ouvido falar deste peixe, resolvi procurar no google mais informacoes. Fiquei muito assustada com coisas que li.Em quem e em que posso acreditar? Voce ja tem mais informacoes sobre o panga?
Obrigada.

rosa   07/04/2011 10:31

Oi, você já ouviu sobre a criação de cação para consumo humano em Fernando de Noronha? Já ouviu falar do tubalhau? Será que eles fazem tudo direitinho como dizem?

Vãnia Ilha Cogo   09/11/2011 23:26

Gostaria de receber informações sobre o peixe panga, pois comprei 4 kg desse peixe, e me disseram depois, q não é bom comê-lo, pois é importado do Vietnam, e cultivado num dos rios mais poluído do planeta. Mas como pode um peixe sobreviver a tanta sujeira assim? Isso é mesmo verdade? Desde já agradeço...

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