Ministério da Saúde adverte...
Eu me choco diariamente com o que vejo na televisão, você não? Já viu o anúncio em que um refrigerante ultra-açucarado corre pelas veias de um casal apaixonado? E aquele em que se afirma que leite de soja (ui!) transgênica (eca!) cheio de açúcar e corante (bleargh...) é a maior diversão para as crianças?
Num país em que 30% das crianças sofrem com sobrepeso e obesidade, cada vez menos se consome arroz e feijão e cada vez mais a base da alimentação é formada por industrializados - macarrão, pão, biscoito, refrigerante, iogurte (que nem pode receber esse nome, virou "bebida láctea"), notícias como a que eu recebi na semana passada são um alívio sem tamanho.
A novidade é que a Anvisa anunciou novas regras para a propaganda de produtos com altos níveis de açúcar, sal e gorduras. De acordo com a matéria do Estadão (grifos meus):
(...) a propaganda desses alimentos deverá conter frases informativas, a exemplo do que ocorre com medicamentos - e nos mesmos moldes de tamanho e cor. Por exemplo, um comercial de bolacha de chocolate deverá trazer, por escrito e lido pelo narrador, uma frase alertando que se trata de um produto com altos índices de açúcar (substância que, se ingerida em excesso, pode provocar diabete, aumento do colesterol e obesidade). Além disso, a propaganda dirigida a crianças só poderá ser veiculada entre as 21 e 6 horas. Animações e uso de personagens de desenhos infantis nos comerciais ficam proibidos. Também não poderão ser feitas ações de marketing em escolas e materiais escolares.
As regras serão válidas para propagandas em revistas, jornais, televisão, rádio e internet. "A regulamentação trará regras para as propagandas que influenciam no consumo de determinados produtos entre a população, até mesmo infantil", diz a gerente-geral de Fiscalização de Propaganda da Anvisa, Maria José Delgado. Segundo ela, a decisão está baseada no aumento da incidência de doenças crônicas no País, como diabete, hipertensão, síndrome metabólica e problemas cardíacos.
Não coloco o texto inteiro porque não concordo com a postura do Estadão, que faz de tudo para desconstruir essa sábia decisão. Nenhuma novidade, já que para eles essa é uma notícia trágica: significa menos dinheiro entrando.
Acho nojento o jeito com que os grandes veículos tratam o tema, defendendo os parceiros anunciantes, que por sua vez se agarram à autorregulamentação do setor. Os representantes da indústria dizem que já "assumiram um compromisso" prometendo mudanças na publicidade para crianças de até 12 anos, a partir de janeiro do ano que vem. Se já estão dispostos a mudar, por que temem as normas da Anvisa? Porque, se você olhar bem, as regras do compromisso são muito mais leves. Preveem, por exemplo, que o fim dos anúncios será restrito às mídias e aos programas que tenham ao menos metade da audiência formada por crianças. Quem vai medir isso? E como? Até o Estadão duvida, ainda que de forma bem suave, e afirma que é "algo não tão simples de medir". Como se não bastasse, essas regras têm uma exceção: produtos cujo perfil nutricional atenda a critérios específicos baseados em evidências científicas. Rá! Com isso eles conseguem tudo! É só bancar uma pesquisa que ateste que um nutriente qualquer da soja faz bem e pronto: suco de soja transgênica cheio de corante e conservante pode ser anunciado sem restrições.
Eu sofro. Sofro ao ver crianças se entupindo de açúcar, tendo ataques de birra e ficando cada vez mais doentes. Sofro ao ver pais, especialmente os que têm menos dinheiro, e que na ânsia de "dar para o filho o que nunca puderam ter", deixam de comprar comida de verdade para comprar produtos alimentícios (mais sobre essa diferença aqui) cheios de veneno.
Às vezes me questiono por pagar um pouco mais caro em alguns alimentos, como os produtos orgânicos ou azeites, por exemplo. Mas quando converso com a minha faxineira tenho a impressão de que ela, que não compra nada disso, gasta mais do que eu no supermercado. Refrigerantes, biscoitos e "bebidas lácteas" fazem parte da alimentação diária da sua família. Outro exemplo? Alguns meses atrás, quando ela veio me contar que estava grávida, soltou logo: "É, agora tenho que trabalhar mais, a lata de Nan tá cara!". Ela nem teve o filho, muito menos sabe se vai ter alguma dificuldade para amamentar, como é que já está implícito que vai ter que comprar Nan?! Sofro.