Noventa e três
Eu falei outro dia que tenho três avós. Coincidentemente, as três são sagitarianas. Então por favor me perdoe e tenha paciência para mais um post sentimental-familiar-choramingoso em tão pouco tempo.
Pois que minha avó paterna completou hoje noventa e três anos de vida. Uma pena ela estar de cama justo nesse dia - há 2 semanas teve um probleminha e está se recuperando -, simplesmente não combina com ela. Posso imaginar seu desespero por ter de ficar longe do fogão em dia de receber visitas.
Vó Luzia não é de se entregar fácil. Engana todo mundo dizendo que está ótima. Esconde a dor até não poder mais. Tanto que ela só está de cama agora porque vestia calças quando sabia que iríamos visitá-la, assim não víamos que suas pernas estavam com problemas. Ontem, quando eu perguntei se estava sentindo muita dor, deu sua resposta clássica: "Se eu disser que está doendo estou mentindo!".
Ela é uma avó típica. Cabelinho branco, bochechas rosadas e olhos azuis. Sempre te recebe com um sorriso gostoso e um abraço apertado. É daquelas que cozinha gostosuras, deixa os netos fazerem tudo e tem uma lata de doces pronta para o ataque.
As comidas da Vó Luzia são um capítulo à parte. Aliás, dois capítulos. Capítulo 1, as comidas de dia de semana: abobrinha frita; salada de legumes com ovo; macarrão com brócolis (toda terça); couve-flor empanada; carne de panela; picadinho de carne com batata - ela sempre colocava um ovinho pra mim, e as batatas nós duas sempre amassávamos no prato); além, é claro, do melhor arroz com feijão do mundo.
Capítulo 2, as estrelas do domingo. Antes de listá-las, é preciso dizer que Vó Luzia é daquelas que no almoço de domingo fazia o prato preferido de cada um. Era sempre um banquete: bolinhos de batata recheados com queijo; porpettas; berinjelas recheadas no forno; tortas macias cujos recheios variavam (palmito, frango, sardinha, camarão); frango assado (cada semana de um jeito diferente); murignanas na pastela (berinjelas em fatias passadas numa massinha delícia e fritas - e sempre a sobra da massa ela fritava feito panqueca e recheava com queijo, só pra mim). O "primeiro prato" era sempre uma massa - que podia ser desde um spaghetti simples até a grande unanimidade: os gnocchi. E sempre com molho de tomate, feito por ela toda semana com tomates fresquinhos.
E nesse livro ainda haveria espaço para os doces: bolo de laranja bem molhadinho; doce de leite em pedaços, doce de abóbora cremoso, pudim de batata-doce, mantecal...essas perdições que alegraram minha infância - e a dos outros 4 netos.
De Vó Luzia herdei o gosto por cozinhar. Meu arroz com feijão ainda não chega nem perto do dela - e duvido que um dia chegue - mas vou continuar tentando. Um dia quem sabe consiga fazer também gnocchi como os dela. Mas o que eu espero mesmo, de verdade, é chegar aos noventa e tantos com a lucidez e a pele dessa mulher.
