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DEZ 09
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A última

Ainda bem que as minhas avós não lêem o Fogão Azul. Porque se por um lado teriam ficado felizes com as homenagens que ando fazendo, por outro ia dar briga. Ah, ia. Elas sempre foram muito calmas, muito educadas, mas quando batia a ciumeira...hum!

Hoje, por exemplo, foi o aniversário da última das sagitarianas. E eu fiz post pra primeira, fiz post pra segunda...mas não me preparei pra fazer post pra Vitória. Não peguei foto dela novinha, não peguei a receita da única coisa feita por ela que já comi... fazer o quê, vou deixar pra postar depois.

E sim, você entendeu bem. Eu só lembro de ter comido uma coisa feita por ela: bertulina (bertolina/bertullina/bertollina?). Vó Vitória nunca foi muito chegada na cozinha. Diz a lenda que ela tinha mais alguns pratos excelentes na manga, dentre eles um coelho divino. Nunca vi nem comi - nem o dela, nem o de ninguém - eu só ouço falar.

Em compensação, trago ótimas lembranças da tal bertulina, um bolo de uvas pretas muito do saboroso. Vou ver se consigo arrancar dela a receita. Não vai ser fácil. Dona Vitória é mulher dura, italiana marcada da guerra. Teve seus dois filhos em meio aos bombardeios, perdeu parentes, viu sua casa metralhada. Com trinta e poucos anos, largou pai, mãe, irmãos, pegou os filhos, entrou num navio e veio pro Brasil, um ano depois do marido.

Não é uma mulher fácil. É da turma da reclamação, do como-eu-sofro, do dedo na cara. Convide-a para um almoço, dê-lhe uma taça de vinho (que ela aceitará de bom grado, depois de falsamente relutar um pouco, dizendo que por coincidência naquele dia esqueceu de tomar os remédios), e aguarde a metralhadora apontar pra cada um. Ela vai achar o ponto fraco de cada um dos convidados e dizer na lata, sem dó. Quer melhor atração pra sua festa? Risadas garantidas. Mas previna os mais sensíveis, evitando assim possíveis lágrimas.

Com ela não aprendi a cozinhar, mas não posso dizer que não aprendi nada. Ela foi minha grande professora de tricô e crochê. Claro que já esqueci tudo. Hoje mal sei pregar um botão. Mas ela arrasava, fazia e desfazia com as agulhas. Outra coisa que ela me ensinou foi a jogar cartas. Passávamos horas jogando vinte-e-um, sete-e-meio, e outros milhares de jogos de que não me lembro mais o nome. Eu me divertia horrores - especialmente com os palavrões italianos que ela soltava quando perdia.

A dureza da guerra também deixou de herança a simplicidade: dê a ela um copo de vinho, um pedaço de pão e um bom queijo e tudo se resolve - e dessa lição eu não me esqueci.

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