40 anos depois
Já posso dizer que cozinho num fogão de 40 anos. Eu contei aqui que ele foi presente de casamento da Tia Regina pros meus pais, certo? Pois na última sexta eles completaram 4 décadas de casados.
Sim, é mesmo algo bastante raro. Hoje certamente não duram tanto - nem os casamentos, nem os fogões.
Eu poderia escrever mais sobre isso. Sobre os vazios relacionamentos atuais, sobre o consumo desenfreado e desnorteado, sobre os produtos e relações feitos para durar o mínimo possível, sobre a exaltação do próximo e do próximo, e do próximo... Mas não hoje. Porque na sexta passada vi meus pais - 40 anos de casados, 6 de namoro - e me carreguei da sensação de que é possível.
Um jantar simples, porém saboroso. Um vinho honesto. Um carinho misturado com provocação (o bolo de fubá - a sobremesa preferida dele -, feito por ela, mas seguindo uma receita diferente - para total desespero dele, que percebe a diferença pelo cheiro, ainda antes do bolo sair da forma). Resmungos. A neta dormindo na sala. O telejornal de trilha sonora. E o brilho que tomou conta de seus olhos quando começaram a se lembrar do dia 23 de abril de 1970.
Casamento, cotidiano, implicância. Fazendo peso lá do outro lado da balança, o crescimento, a troca, a cumplicidade e o aprendizado que só acontecem numa relação longa e estável. Um saco, uma delícia. A rotina imprevisível. A surpresa esperada. Como dizia meu amigo Giu numa daquelas deliciosas (porém adolescentemente sofredoiras) tardes no centro acadêmico da ECA: "É simples. Não quer dizer que seja fácil. Mas é simples."
