Sopetela
Sopetela. Ouço essa palavra desde que nasci, mas nunca a havia escrito. Nem lido. Fiz até uma busca no velho Google para ver se encontrava alguma referência, mas não achei nada. Claro que não. Uma palavrinha assim, misturando português e italiano, desse jeito tão simples mas com tanto significado, só poderia ser mais um dos neologismos da Tia Regina.
Sopetela é um jeito carinhoso de chamar a sopa feita toda santa noite na casa de minha avó. Sopinha simples, de batata, cenoura, macarrão e às vezes frango. Vó Luzia cozinhava e batia os legumes e Tia Regina era a responsável por acrescentar o macarrão. Se elas estavam presentes, não havia jantar que não começasse com sopetela. E não havia criança que não gostasse. Eu, que era ruim pra comer, devorava o meu pratão.
Minha mãe manteve o hábito e também faz sopa diariamente no jantar dela e do meu pai (e meu, quando eu morava lá). Só que a deles é mais incrementada, tem vários legumes e até umas verdurinhas. De fim-de-semana, quando os netos vão lá, ela volta pra receita da vó e faz aquela sopinha cremosa, cor de laranja, comfort food até a alma. Eu nunca resisto.
Receita de sopetela não há. Eu nunca perguntei à minha avó ou à minha mãe (e nem mesmo à Tia Regina) como se faz. Acho que é meio instintivo, pelo menos na minha família, de tanto que se viu fazer. Porém nunca havia feito. Foi no ano passado que, no finzinho do inverno, precisando de um carinho e de comida quente, coloquei na pressão algumas batatas e cenouras, todas orgânicas exalando cor e sabor, cobri com água, salguei e juntei uma cebolinha bem pequena e um fio de azeite. Depois de uns 15 minutos desliguei, deixei esfriar, abri e bati com um mixer. Acendi novamente o fogo e, agora com a panela aberta, coloquei pra ferver. Juntei macarrão cabelo-de-anjo quebrado com as mãos e apaguei o fogo. Aí tem que deixar lá paradinha um tempo, para o macarrão cozinhar e ela encorpar. Tomei na cumbuquinha - uma novidade pra Tia Regina, que só toma em prato fundo -, com um fio de azeite e parmesão ralado.

