Torta da preguiça
Essas fotos estavam guardadas há quase um ano nos meus baús digitais. Foram ignoradas porque, convenhamos, não ficaram nada boas. Bati o olho nelas hoje e...continuei achando feias. Mas dei tanta risada lembrando de como essa torta foi feita que decidi compartilhar.
Nem me lembro mais de como e porquê eu estava tão apressada ou tão de saco cheio ou tão sem ingredientes na geladeira, mas jamais esquecerei o que passou pela minha cabeça enquanto colocava a torta no forno: "É, Maria Rê, nunca que isso vai dar certo. Parabéns, você acaba de desperdiçar comida por causa da sua preguiça."
Sofri durante os 30 ou 40 minutos em que ela ficou no forno, porque eu não suporto a ideia de desperdiçar comida. Mas a tensão acabou num sorriso malandro ao abrir o forno e provar o primeiro pedaço. Tinha ficado deliciosa! Viva a mundrungagem e a ousadia na cozinha!
A massa veio do Chucrute com Salsicha, da Fer, e já tinha aparecido aqui no Fogão Azul. O diferencial ficou por conta do recheio. Uma pessoa normal faria um refogado com o milho e o tomate, deixaria apurando no fogo e, depois de frio, colocaria sobre a massa. Mas quem disse que eu sou uma pessoa normal?
Massa
- 3 ovos - uso caipiras e orgânicos
- 1 xícara {chá} de leite - uso integral, sempre que possível orgânico
- ½ xícara de azeite de oliva extra-virgem
- Sal - usei uma mistura de sal batido com cebola, alho e manjericão
- Queijo parmesão ralado na hora
- Ervas secas ou frescas- usei orégano, salsa e manjericão
- 2 xícaras {chá} de farinha de trigo
- 1 colher {sopa} de fermento em pó
Bater os 6 primeiros ingredientes no liquidificador. Desligar e juntar a farinha e o fermento. Misturar bem com uma colher de pau. Untar e enfarinhar uma forma (usei o refratário quadrado). Despejar metade da massa. Espalhar o recheio e cobrir com o restante da massa. Polvilhar queijo ralado e assar por 30 minutos em forno pré-aquecido.
Recheio
- 1 lata de tomates pelados
- Os grãos de 2 espigas de milho, cozidos - os meus estavam congelados
- Sal, pimenta e ervas a gosto
- Colheradas de requeijão cremoso
Versão normal: numa panela, aquecer azeite. Adicionar alho/cebola e deixar dourar. Picar os tomates e mandá-los pra panela. Descongelar os grãos de milho e mandá-los pra panela também. Acertar o sal e a acidez. Juntar a pimenta e as ervas. Cozinhar até apurar. Adicionar o requeijão e misturar bem. Deixar repousando até esfriar.
Versão preguiça: abrir a lata de tomates. Esfaquear os tomates dentro da lata mesmo. Colocar sobre a massa da torta. Tirar os grãos de milho do congelador e espalhar por cima, ainda congelados. Polvilhar sal, pimenta e ervas. Finalizar com algumas colheradas de requeijão. Pronto.
Escolha sua versão e seja feliz. =)
Não é raro eu escrever um post com uma música martelando na cabeça. Hoje foi assim e a música foi essa:
Verde-e-amarelo
Tem quem use a mesma calcinha ou cueca. Tem quem não lave a camisa até o fim da Copa. Tem quem prefira ficar longe da TV e feche os olhos na hora do gol. Eu preferi essa mandinga de colocar uma foto verde-e-amarela por jogo. Vai, Brasil!
Quinua vermelha com molho de espinafre e castanha-do-pará
Era pra ser um pesto. Fui pegar o processador e não achei a lâmina. Tinha pressa demais para picar na mão, restou-me o liquidificador. Mas aí já não era mais pesto. Não me incomodo muito com essas guinadas que acontecem durante o preparo dos pratos na minha cozinha. Pelo contrário, até gosto. Nessas horas de "ih, acabou o leite!" é a que a criatividade vence o comodismo e as melhores receitas aparecem.
Coloquei no copo do liquidificador um maço de folhas de espinafre orgânico bem lavadas e secas; algumas castanhas-do-pará (também orgânicas, que comprei na Bio Fair de uns produtores de Manicoré, Amazonas); azeite; sal; alho e um tanto de água para ajudar no processo. Bati até virar um molho grosso, cremoso e perfumado. Levei ao fogo só para dar uma acordada.
À parte, havia lavado e escorrido uma xícara de quinua vermelha. Cozinhei em água fervente temperada com sal de ervas, até os grãos ficarem macios. Servi com o molho de espinafre e linguiças assadas com tomates.
Nhoque de abóbora
Bem poderia chamá-los de gnocchi. Mas acho nhoque um dos aportuguesamentos mais fofos que existem. Além do mais, estes aqui não são os tradicionais, de batata, os quais ainda não me arrisquei a fazer. Afinal de contas, quando os fizer, invariavelmente vou acabar comparando o resultado ao nhoque da Vó Luzia, e a chance de eu me dar mal nessa é muito grande.
Poderia ter feito de mandioca, inhame, mandioquinha, ricota... Mas resolvi começar com a abóbora porque era o que tinha em casa. Peguei inspirações aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. Fiquei bem apreensiva durante o preparo e cheguei a pensar que tudo estava perdido. Mas não é que deu certo?
Coloquei no forno uma abóbora japonesa média cortada em quatro. Assei até que ficasse bem macia. Retirei a polpa com uma colher. Passei pelo empremedor de batata, com o cuidado de desperezar o líquido que sai no começo do processo. A esse purê, adicionei dois ovos batidos, uma colher de manteiga e um tanto de sal. Aos poucos, fui adicionando farinha até dar ponto.
Pausa. Este é o momento mais importante do preparo. Até aqui, nada tem muito erro. Mas agora, seu nhoque está numa bifurcação e precisa decidir entre o caminho do sucesso e o do fracasso. Só que a decisão não depende dele. A responsa é sua, meu amigo. Tudo depende da quantidade de farinha que você colocar. Tem que se concentrar e sentir quando é o momento de parar. Vá colocando aos poucos, por favor. Muito cuidado para não exagerar e deixar seu nhoque pesado e com gosto de restaurante ruim.
Foi aqui que eu quase desisti e pedi uma pizza. Eu ia colocando farinha e a massa continuava molenga e grudenta. Nunca que eu iria conseguir enrolar cobrinhas e cortar pedacinhos. E fiquei com medo de colocar além da conta e deixar a massa farinhenta. Fui olhar de novo as receitas que me inspiraram e notei que várias orientavam a modelar os nhoques com ajuda de colheres e não no tradicional método enrola-e-corta. Pois segui as orientações e, depois de uma trabalheira danada, consegui uma resultado d-e-l-i-c-i-o-s-o.
Como o nhoque estava com sabor bem suave, fiz um molho mais forte. Derreti manteiga, refoguei cebola ralada, juntei farinha e deixei fritar. Adicionei leite e mexi muito bem mexido com um fouet. Temperei com sal, pimenta, noz-moscada. Quando engrossou, somei um bom tanto de queijo meia-cura ralado. Mexi até que o queijo estivesse derretido e a textura homogênea.
Foi aprovado com louvor pelos dois Andrés. O Leite, meu já conhecido personal nerd e testador oficial de receitas e o Benevides, novo sócio da Locomotiva (terei novidades em breve!) e o responsável pelas fotos desse post.
Enquanto o tempo não trouxer teu abacate
No último post eu comentei sobre as dificuldades e prazeres de escolher sua comida e propus uma mudança de olhar. Hoje me deu vontade de dizer que é possível.
Senti uma diferença muito grande quando comecei a comer orgânicos, basicamente por dois motivos: preço e sazonalidade. Esses dois fatores me fizeram dar muito mais valor aos alimentos. Eu não me permito mais deixar um pé de verdura estragar na geladeira, porque não paguei 50 centavos por ele num hipermercado qualquer. Sei que é uma pequena jóia produzida pela natureza e pelas mãos habilidosas de alguém que não usou agrotóxicos nem está sugando da terra mais do que ela pode dar naquele momento.
Sentir no bolso que posso estar jogando no lixo um valor maior que poucos centavos (normalmente justo, exceto quando há um estabelecimento intermediário ganhando muito em cima) me obriga a vencer a preguiça e ir lá lavar as folhinhas. Além disso, o fato de os alimentos serem sazonais me faz aproveitar ao máximo a época de cada um. Estamos (mal) acostumados a encontrar batatas, tomates, laranjas e até morangos durante o ano todo. Mas isso não é natural. Todo alimento tem sua época. E os que não estão na época não costumam ser nada saborosos. Ou então vieram de longe, geralmente do outro hemisfério, o que é uma porcaria para o meio ambiente porque esse transporte exige muita queima de combustível - e eu não aceito a ideia de poluir mais ainda o mundo para eu matar minha vontade de comer pêssegos no inverno. Por tudo isso, aproveito enquanto é tempo. Agora, por exemplo, estão chegando os morangos. São poucos meses por ano (e uma das poucas alegrias que o inverno me traz), por isso compro toda semana e como até me lambuzar.
Morango, por sinal, é uma das frutas que só como se for orgânica, porque sei da quantidade absurda de agrotóxicos usada no cultivo dito normal. Além do mais, estes são geralmente secos e sem gosto. Prefiro não comer do que me decepcionar com algo caro, ruim e poluente. Os orgânicos e agroecológicos são sazonais por essência, mas você pode respeitar a época certa mesmo se consome alimentos 'comuns'. Sua conta vai ficar mais barata e sua comida melhor. Duvida? Prove uma mexerica na época (que também está chegando agora!) e me diga se não é muito mais saborosa.
Se nenhum dos meus argumentos te convenceu, quem sabe um pouco de música ajude:
Com que comida eu vou?
Sabe quando a gente abre o armário, dá uma olhada por cima e tem vontade de sair reclamando que assim não pode ir ao samba? Que não há roupa que sirva, agrade ou combine? Que você precisa sair correndo para uma loja? Normalmente, basta olhar de novo com um pouco mais de cuidado que a iluminação acontece. Aquela calça antiga que não usa há séculos dá uma piscada, você experimenta e logo lembra que a blusa que ganhou no último aniversário ficaria ótima com ela, especialmente se usasse também um cinto lindo que comprou na semana anterior. Mexe daqui, mexe dali, você acaba se surpreendendo com o resultado final.
Assim é também com a comida. É muito comum a gente abrir a geladeira, não encontrar nada "pronto" e sair bufando que não tem comida em casa e precisa ir ao mercado com urgência. Pois se isso acaba de acontecer com você, sugiro que solte a chave do carro (ou o guidão da bicicleta) e olhe de novo para a sua querida geladeira. Tem certeza que não dá pra sair nada daí? Aquela cenoura perdida ali na gaveta...tá boa ainda? Ótimo, já começamos bem. Tem ovos? Muito bom. Manteiga, um restinho de leite... Na despensa tem uma boa farinha? Ah, veja ali na cesta, uma abóbora inteirona e alguns inhames...perfeito.
Assim como a roupa pro samba, sua refeição vai surgindo na cabeça e na panela. E provavelmente o resultado vai surpreender. Se por acaso na primeira vez aparecer uma gororoba horrível, tenha fé e tente de novo. Com a prática você vai acumulando um repertório de ideias e já sabe o que dá certo e o que não dá.
O importante é mudar o olhar. É se libertar da lasanha congelada, do macarrão instantâneo, do biscoito recheado, da pizza do delivery, do pão-com-queijo-e-peito-de-peru. É não esperar ter algo pronto te esperando e ser de fato responsável pelo que come. E se permitir descobrir novos sabores e novas maneiras de lidar com velhos ingredientes. Garanto: é um aprendizado delicioso.
Que tal começar hoje mesmo e olhar com outros olhos para esses meninos feiosos aí embaixo? São inhames (que agora devem ser chamados de taros, leia mais a respeito no Come-se). Já experimentou colocar na sopa, na carne de panela, no feijão, no purê? Então experimente assá-los. É só cortar em palitos, colocar numa assadeira forrada com papel-manteiga, regar com azeite e sal e mandar pro forno por cerca de 40 minutos, sem cobrir. Como fiz aqui com mandioquinhas. E bem-vindo à legião de amadores do inhame assado.
Caldinho de feijão {que aquece mas não explode}
Fazer caldinho de feijão é muito simples. Basta cozinhar o feijão, bater no liquidificador e temperar a gosto. De repente sobrou feijão cozido e temperado aí na sua geladeira e você já pula duas etapas, bastando liquidificar. Se gostar de carne, pode servir com cubinhos de bacon fritos, ou então rodelinhas de linguiça calabresa. Se não for chegado, pode usar croutons bem temperados ou cebolinha verde picada. Há também quem acrescente uma dose de cachaça.
Mas o feijão, prezado leitor, essa paixão nacional que é o feijão, também tem seus crimes. E sempre há quem denuncie: "Feijão? Ui, me dá uma aziiiia..." ou "Menina, não posso comer feijão à noite, não, que ele me dá gases!". E são falsas as acusações? Não são. Claro que os efeitos variam de pessoa pra pessoa, mas o feijão realmente não é de fácil digestão.
Pensando em abolir esse grãozinho da sua panela? Não! Tão gostoso e tão nutritivo, seria uma perda lastimável. Vamos solucionar isso de outro jeito. Aqui em casa, uso duas técnicas: 1 - deixar de molho para que fermente fora da barriga; e 2 - temperar muito bem com ingredientes que ajudam na digestão. As dicas vêm de duas mulheres que sabem muito de cozinha e saúde, a Pat Feldman e a Sônia Hirsch.
O processo começa na compra do feijão. Prefira um bem novo, de preferência orgânico. Escolha para tirar as pedrinhas e sujeiras. Lave bem. Agora você vai colocar de molho. Quanto mais tempo melhor. Uma noite é suficiente, mas se deixar por 18, 24 horas, perfeito. Eu uso água morna e soro de iogurte*, mas você pode usar gotas de limão ou vinagre.
Passadas essas horas, escorra e lave bem. Coloque na panela, cubra com água filtrada e aqueça até ferver. Agora desligue o fogo e escorrer de novo. Sim, despreze essa água. Volte o feijão para a panela, cubra com água novamente, adicione um fio de azeite, algumas folhas de louro e uma cebola. O sal ainda não. Se tiver por aí um bom bacon ou uma linguiça de qualidade, aproveite e mande pra panela.
Você pode usar a panela de pressão se estiver com pressa, mas não é o mais recomendável. O ideal é usar uma panela grossa, de preferência de pedra ou barro, e cozinhar em fogo baixo bem lentamente. Eu acabo usando a de pressão mais do que deveria, mas sempre que posso uso a de barro, que além de mais saudável deixa o feijão muito mais saboroso.
Depois que os grãos estiverem macios, desligue o fogo e bata no liquidificador. [Até aqui o processo é o mesmo para fazer caldo ou feijão, reparou? Para fazer um feijãozinho de comer com arroz, é só não bater.] Agora volte para a panela e vá acrescentando os temperos. Sal, alho picado ou espremido, pimenta-do-reino moída na hora, cominho. Se gostar, junte também gengibre - ajuda bastante na digestão.
Nesse momento, o sucesso do seu feijão - ou do seu caldinho - só depende de você deixar apurando bem. Deixe cozinhando em fogo baixo até que os temperos tenham sido incorporados e o caldo esteja bem grosso. Sirva em cumbuquinhas, copinhos ou uma xícara, como eu fiz. Um fio de azeite, uma erva fresca - ou o tal do bacon e a cachacinha...
*Soro de iogurte é o líquido que escorre do iogurte quando você faz cream cheese. Vou postar sobre isso em breve, mas é só colocar iogurte natural num coador de café de pano (limpo!) e deixar escorrer por algumas horas. Em cima, cream cheese (ou coalhada). Em baixo, o soro. A dica é da Pat Feldman.





![Brasileirinhos [Mandioca com molho de espinafre]](http://farm5.static.flickr.com/4015/4717179581_6e505ea87c.jpg)







